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domingo, 10 de janeiro de 2010

Dalva e Herivelto - balanço final

Os cinco capítulos da minissérie de Maria Adelaide Amaral podem não ter sido primorosos, mas um dos produtos mais bem feitos dos útimos tempos. Melhor que Maysa, a minissérie abordou de forma concisa a briga pública dos dois artistas e resgatou a imagem de Dalva de Oliveira para gerações que nasceram após a sua morte. Eu mesma só conhecia Abajur Lilás e Bandeira Branca e me emocionei com passagens de sua vida.

Ao contrário do que li em algumas críticas, acho que Adriana Esteves defendeu muito bem o seu papel, a caracterização da cantora estava muito bem feita e, na maioria das vezes, a dublagem soava natural. Destaque para a apresentação de Bandeira Branca no Maracananzinho lotado. Já Fábio Assunção pode ter exagerado no tom do Herivelto. Não há como não odiar o personagem após tudo o que fez com Dalva, mas não há redenção do mesmo. Fica o gosto amargo.

O roteiro não é tão primoroso quanto pensei no primeiro capítulo. Na verdade, não há uma construção não-linear, apenas um paralelo entre início e fim. O recurso, ao contrário de ser inovador, acabou sendo caminho fácil, tornando por vezes, ilustrativo e repetitivo. Ainda assim, conseguiu contar bem a história. Foi muito interessante conhecer detalhes da disputa musical da época de Ouro do Rádio e a caracterização de época foi muito bem feita.

Foi, enfim, uma boa minissérie, confirmando que a Globo quer investir, cada vez mais, em produtos curtos. E a audiência ajudou a demonstrar que estão no caminho certo. A média foi de 29 pontos segundo o site NaTelinha. Gosto da ideia, prefiro assim do que aquelas minisséries longas de quase dois meses.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Viva Dalva e Herivelto


Tenho que pedir desculpas a quem ler o EntreBreaks, mas conforme já falei, ando meio descuidada do espaço por falta de opções na televisão que me animem. A partir de março de 2010, devo me dedicar mais ao blog, principalmente com as obras de Gilberto Braga, meu objeto de estudo no mestrado que irá se iniciar. De qualquer forma, sempre que surge algo interessante estou por aqui. Hoje falo da estreia da minissérie Dalva e Herivelto, de Maria Adelaide Amaral que segundo o site Plenário, foi "muito bem obrigado" em termos de audiência. Uma média de 28 pontos, o que é um bálsamo para a emissora que tem amargado baixas audiências em obras desse gênero. O horário pode ter facilitado, afinal, o pior das minisséries é ter que esperar toda a programação noturna para assistir.

A minissérie começou logo após a novela Viver a Vida e me surpreendeu pela linguagem ágil. Boa produção, já é esperado de uma obra da Rede Globo, assim como a caracterização da época. Fábio Assunção e Adriana Esteves estão muito bem nos papéis títulos, dando veracidade mesmo nas cenas de dublagem. Mas, a surpresa ficou pelo texto de Maria Adelaide Amaral. Com exceção de Queridos Amigos, suas minisséries sempre foram longas e arrastadas, quase uma micronovela. Cinco capítulos pincelados da vida do casal com uma linguagem não-linear não era realmente o que eu esperaria. Mas, gostei. Já deu para conhecer um pouco da trajetória sofrida de Dalva, do caráter de Herivelto, além de sentir o clima dos anos dourados do rádio.

O primeiro capítulo começou muito bem, com o suspense em torno de Dalva já idosa, de costas, ouvindo sua música em uma "vitrola", e logo em seguida a ligação e o desmaio. Os saltos aleatórios no tempo são interessantes e bastante funcionais. A estrela do samba-canção, com toda dor de cotovelo que lhe é peculiar merecia ter a sua história narrada, após o sucesso da minissérie Maysa. Agora é aguardar que os quatro capítulos restantes sejam tão bem feitos quanto o primeiro.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Cinquentinha

A estreia da nova série de Aguinaldo Silva ontem, demonstra que o humor ainda pode ser inteligente na televisão. A terminologia ainda é confusa, já que é apresentada como série, mas tem uma estrutura de minissérie global, com exibição diária e história contínua. Mas, o importante nesse caso, e em todos os produtos televisivos, é mesmo o texto. Não é por acaso que de todos os meios audivisuais, é na televisão que o escritor tem maior prestígio. E o texto de Aguinaldo Silva é ágil, interessante e envolvente.

Um milionário morre e deixa 50% de sua herança para os netos e os outros 50% para as três ex-esposas. O problema é que as mulheres se odeiam e terão que administrar em conjunto o que herdaram. O mote lembra muito o da novela Guerra dos Sexos de Sílvio de Abreu, mas, nem por isso, deixa de ser interessante.

São elas:
- LARA ROMERO, grande atriz de carreira atribulada, uma diva das novelas de tevê que riscou de uma vez por todas do seu dicionário a palavra decadência.
- MARINA SANTORO, fotógrafa de grande prestígio, apanhada no meio de uma crise que, pelo menos por uma noite, a fez ficar indecisa entre “rapazes” e “moças”.
- REJANE BATISTA, egressa da chamada geração flower power, que vê sua rebeldia dos anos 70 se voltar contra ela na figura ainda mais rebelde da sua incontrolável neta.

Engraçado que o autor disse que se inspirou nas atrizes para escrever o texto, o que causou uma certa falta de identidade à Rejane Batista que mudou várias vezes de intérprete. O que mais chama a atenção é a personagem de Suzana Vieira, que recentemente foi envolvida em várias polêmicas nos bastidores da Rede, e interpreta uma atriz barraqueira, exigente e que namora homens mais novos. Qualquer semelhança, acho que não é mera coincidência.

O primeiro capítulo foi ágil, apresentando bem as três situações, com cenas hilárias e um gancho interessante. Wolf Maia reforçou o seu estilo com cortes rápidos e no tempo da comédia. Agora é aguardar para conferir se a continuação irá manter o bom início.



interurbano

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

As melhores minisséries de todos os tempos (?)

Após a lista das melhores novelas, resolvi fazer a das melhores minisséries. Após o advento do DVD, ficou mais fácil resgatar antigas pérolas da Rede Globo, o que facilita uma lista mais homogênea, mas dificulta a escolha devido ao número de opções. Por isso, em vez de 10, coloquei 12 na minha lista. Interessante observar que, tirando a extinta Rede Manchete, nenhuma outra emissora aderiu ao formato, além da Vênus Platinada.

As minisséries começaram na Globo em 1982, com Lampião e Maria Bonita, segundo Daniel Filho em seu livro O Circo Eletrônico era uma tentativa de fazer algo mais enxuto e com isso, caprichar na produção. Talvez por isso, as minisséries tenham esse ar de melhores que as novelas, apesar de não terem o mesmo impacto na cultura contemporânea.

12 - Filhos do Sol
Pouco lembram dessa minissérie da Rede Manchete, pelo menos entre meus conhecidos, mas eu simplesmente adorava a história que se passava na mítica Macchu Picchu, cidade que ainda irei conhecer. Airton, vivido por Raul Gazola, vai para a cidade na tentativa de confirmar a existência de extraterrestres no local. E se depara com Hiran, Cassiano Ricardo, que pode matar quem ele toca. Dentre outras coisas, Airton se apaixona pela personagem da Cristina Mullins, sem saber que ela é uma extraterrestre também.

11 - Grande Serão Veredas
Baseado no romance de Guimarães Rosa, conta a história de jacunços no interior do país. A trama principal é centrada na relação de Riobaldo e Diadorim, o primeiro não sabe que o segundo é, na verdade, Deodorina, só descobrindo a verdade quando esta está morta e eles não podem mais consumar o amor platônico. A minissérie marcou pela surpreendente interpretação de Bruna Lombardi como Diadorim.

10 - Rabo de Saia
A história de Seu Quequê caixeiro viajante interpretado por Ney Latorraca, que tem uma mulher em cada cidade que passa. Eleuzina, vivida por Dina Sfat, Santinha por Lucinha Lins e Nicinha por Tássia Camargo. A minissérie tinha um tom divertido, sendo uma comédia de costumes muito bem realizada.

9 - As noivas de Copacabana
Escrita por Dias Gomes, thriller em que Miguel Falabela vivia um serial killer com uma característica bastante peculiar, suas vítimas sempre estavam vestidas de noiva. A minissérie foi um sucesso pelo formato inusitado, contando com a participação de grandes atrizes nos papéis das vítimas: Christiane Torloni, Tássia Camargo, Ana Beatiz Nogueira, Zezé Polessa, sem contar com Patrícia Pilar como a noiva do maníaco.

8 - Anos Dourados
Essa minissérie de Gilberto Braga marcou uma época por ser o símbolo do romantismo dos anos 50. O amor de Lurdinha (Malu Mader) e Marcos (Felipe Camargo) conquistou a todos que sonhavam com as cenas de romance. Grande participações como Iara Amaral ou Zé Wilker enriqueceram a trama.

7 - Riacho Doce
Minissérie de Aguinaldo Silva, trazia como trama principal o amor de uma mulher por um pescador local que tinha o corpo fechado pela avó. Nenhuma mulher podia se aproximar do neto, sem acabar de forma trágica. Toda a beleza de Vera Fisher acaba amolescendo o coração de Ricccelli que enfrenta o seu destino. Destaque para Fernando Montenegro como a vó Manuela.

6 - A, E, I, O, Urca
Mais uma vez Riccelli, só que agora com Débora Bloch. A minissérie conta a história do principal cassino do Rio, na época em que Dutra proíbe as casas no país. Escrita por Doc Comparatto e Antonio Calmon, a minissérie tinha diversos números musicais, como Carmem Miranda voltando ao Brasil.

5 - Floradas na Serra
Quatro moças vivem em um internato de recuperação de tuberculosos em Campos de Jordão, suas tramas se dividem entre a vontade de amar e viver, e o medo da doença fatal. Foi uma adaptação de Geraldo Vietri para uma trama que ele tinha escrito para TV Cultura com Bete Mendes e Amaury Alvarez. Baseado no romance de Dinah Silveira de Queiroz e que já havia rendido uma versão cinematográfica, no filme de Luciano Salce de 1954, com Cacilda Becker e Jardel Filho nos papéis principais. Nessa minissérie, Tarsício Filho foi reconhecido como um bom ator, se libertando dos pais.

4 - O Pagador de Promessas
Após a peça de Dias Gomes e o filme de Anselmo Duarte que ganhou Palma de Ouro em Cannes foi a vez do próprio Dias Gomes levar a história para televisão. Com José Mayer no papel do Zé do Burro, a minissérie foi um grande sucesso, tendo uma produção primorosa para época.

3 - O Tempo e O Vento
Doc Comparato adaptou essa obra-prima de Érico Veríssimo, sendo o primeiro grande épico das minisséries globais. Destaque para Glória Pires como Ana Terra, Louise Cardoso como Bibiana e Tarcísio Meira como Capitão Rodrigo. A música de Tom Jobim dava um toque especial a abertura.

2 - Hilda Furacão
Glória Perez conseguiu traduzir a obra de Roberto Drummond de uma maneira bastante romântica e fez de Hilda Furacão uma das minisséries mais inesquecíveis de todos os tempos. O romance entre a prostituta e o padre, vividos por Ana Paula Arósio e Rodrigo Santoro conquistou o país. Destaque para Paulo Autran como o padre Nelson, em seu papel mais consistente na televisão.

1 - Anos Rebeldes
Sou suspeita, pois tenho verdadeira paixão por essa obra de Gilberto Braga. A minissérie conta a história de um grupo de amigos que vive no período da ditadura militar. Divididos entre idealistas e alienados seus destinos vão sendo traçados a medida que os militares vão se tornando mais duros e o movimento estudantil mais ativo. Os personagens principais são Maria Lúcia (Malu Mader), João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) e Edgar (Marcelo Serrado), que vivem um triângulo amoroso. Destaque para Heloísa vivida por Cláudia Abreu e seu pai, Zé Wilker. Além de Pedro Cardoso que vive uma espécie de Gilberto Braga estilizado.

sábado, 25 de julho de 2009

Som&Fúria - Existe vida inteligente na televisão

Som e Furia Montagem EntrebreaksAndo meio afastada do Entrebreaks, mas vou tentar escrever pelo menos dois posts por semana, como antes. Hoje escrevo especialmente com uma sensação triste e alegre ao mesmo tempo. A minissérie Som&Furia acabou, mas nessas três semanas pude assistir a um texto inteligente, com ótimas interpretações e uma direção bem feita.

Ver Shakespeare na televisão também é muito bom, afinal são textos eternos, belos e profundos. Falar de teatro, então, é melhor ainda. Essa tal de pós-modernidade acabou por nos fazer esquecer dessa arte milenar que por muitos é vista como chata. Nesse ponto, tanto as questões levantadas pela vilã vivida por Regina Case, quanto a campanha que o personagem de Rodrigo Santoro fez na minissérie é bem propícia para discussão. Afinal, qual é o público dos teatros? É uma arte antiga, no sentido de ultrapassada? Creio que não.

Som e Furia_sonho de uma noite de verãoVoltando à minissérie, ela foi dividida em duas etapas: a montagem de Hamlet e a montagem de Macbeth (tendo Romeu e Julieta como brinde). Na primeira fase, tivemos Maria Flor e Daniel Oliveira muito bem. Ele, inclusive, teve ótima atuação como o atorzinho de novela que não sabe fazer teatro, mas acaba surpreendendo no final. O capítulo da apresentação de Hamlet foi um dos mais belos da minissérie. Regina Casé também estava ótima como a secretária de cultura inescrupulosa, fazendo uma boa dobradinha com Dam Sturbath.

Na segunda fase, entraram Rodrigo Santoro, Débora Falabela e Leonardo Miggiorin, que não deixaram o nível de interpretação cair. Os personagens fixos também tem seu valor como a produtora vivida por Cris Couto ou a hilária secretária de Cecília Homem de Mello.

Som e FuriaOs personagens principais são um caso a parte. Felipe Camargo volta à televisão como se nunca tivesse saído dela, tirando a loucura, o Dante me lembra muito o Adriano de O Sexo dos Anjos, com o humor sarcástico e o bom coração. O personagem é tão fascinante que o telespectador se envolve com o todo. já Andréa Beltrão sempre foi uma excelente atriz estereotipada pela comédia rasa, desde Zelda Scott até Marilda de A Grande Família. Mas, seus trabalhos dramáticos sempre fora muito expressivos. Como não lembrar da Úrsula de Pedra Sobre Pedra? Ou da Tônia de Mulheres de Areia? No cinema, sua última personagem Verônica também impressiona. Pedro Paulo Rangel está muito bem como o fantasma camarada, com ótimas tiradas.

A direção é um caso a parte que nos mostra definitivamente que a televisão não é o reduto do diretor. Coordenada por Fernando Meirelles, que já demonstrou no cinema sua capacidade criativa e inventiva, a direção é quase neutra, com uma linguagem simples, e alguns poucos momentos sublimes. Mas, a qualidade maior está no ritmo e construção da edição que nos envolve.

Mal acabou e já estou com saudades, agora é torcer para que a segunda temporada vingue apesar da baixa audiência. Até porque o final foi tão assim, como posso dizer, sem fim. Foi quase um até breve, daqui a pouco estamos aqui novamente tocando "os sonetos de Shakespeare".

terça-feira, 14 de julho de 2009

Túnel do Tempo: Anos Rebeldes

Anos RebeldesHá exatos 17 anos estreava na Rede Globo uma das melhores minisséries de todos os tempos. Anos Rebeldes, escrita por Gilberto Braga e dirigida por Dennis Carvalho encantou o Brasil, contando o período da ditadura militar no país.

Com vinte capítulos contou a história de Maria Lucia, João e Edgar. Um triângulo amoroso que se formou na época em que o Brasil vivia o seu pior momento político: A ditadura Militar. Dividindo as personagens entre individualista e idealistas, Gilberto Braga narrou uma época com riqueza de detalhes, incluindo a minissérie no hall dos maiores sucessos da emissora.

João ama Maria Lucia e é correspondido, mas o amor deles é algo que se mostra durante todos os vinte capítulos impossível. João é o exemplo do pai de Maria Lúcia, um homem idealista, que tem a pretensão de mudar o mundo. Totalmente inconstante, não mede esforços por sua luta. Maria Lúcia viveu isso com o pai, não quer mais, mesmo concordando com a maioria das questões humanitárias. Ela precisa de segurança, de futuro, coisa que Edgar, um jovem comum que só quer se formar e se dar bem na vida pode oferecer. Ele também se apaixonou por Maria Lúcia e passa todo o tempo tentando conquistá-la.

Maria Lúcia tem consciência de que não ama Edgar, mas todas as vezes que mais uma tentativa com João é frustrada, ele está ali para ampará-la. Os dois acabam se casando, mas não ficam juntos. Após anos, Edgar percebe que não pode amar por dois. Ele precisa ser amado. A essa altura a ditadura está acabando e João está voltando. Maria Lúcia pensa que agora eles podem tentar mais uma vez. Porém, não era a ditadura, era o idealismo excessivo de João que os separava. Ao perceber que ele vai em busca de outras lutas, Maria Lúcia percebe que tem que virar aquela página.
A minissérie acaba contrariando o melodrama, onde há sempre um final feliz. Este é um final melancólico, onde nenhum dos três se realiza amorosamente. Mas, é um final coerente, satisfatório. Realmente, esta foi uma história de amor impossível e não tinha como haver uma solução mágica para os dois.

A Ditadura Militar se instalou no Brasil em 01 de abril de 1964, depondo o presidente João Goulart e só acabou vinte anos depois com a eleição indireta do presidente Tancredo Neves em 1984. A minissérie cobre quase todo esse período mostrando a trajetória de um grupo de personagens que passa pelas diversas situações possíveis. Alguns favoráveis, como Fábio e Waldir, são beneficiados, ganham dinheiro. Outros como os professores de esquerda são cassados, procurados, exilados. Há ainda, os jovens revolucionários como João, Heloísa (Cláudia Abreu), Marcelo (Rubens Caribe), que são presos, torturados, perseguidos, seqüestram embaixador e acabam exilados ou mortos.

Um conceito que está muito presente na boca da personagem João é Alienação. Ele pergunta a Maria Lúcia se ela é alienada, chama a música Sábia de alienada, briga com o pai dizendo que não quer ser alienado. É um conceito da época, dos estudantes que estavam na luta que buscavam taxar os demais como covardes, egoístas, não antenados com o que estava acontecendo no mundo. Há uma dubiedade nesse comportamento que acaba mostrando uma certa alienação dos reacionários. João só vê a ditadura, só pensa nisso, não vive de outra forma, sacrifica sua vida pessoal, seu amor, seus estudos em nome desse ideal. Segundo o dicionário alienação é perturbação mental, permanente ou passageiro, na qual se registra uma anulação da personalidade individual. Por esse conceito, quem seria alienada? João Alfredo ou Maria Lúcia?

Uma personagem que roubou a cena na minissérie foi Heloísa, vivida por Cláudia Abreu. A princípio uma burguesa fútil que só queria deixar de ser virgem, Heloísa se revelou uma revolucionária e foi protagonista das melhores cenas da minissérie, incluindo a inesquecível cena de sua morte, baleada por um soldado.



De brinde, segue o roteiro dos vinte capítulos da minissérie, cedido generosamente por Gilberto Braga.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Túnel do Tempo - Hilda Furacão

hilda furacão ana paula arosioDia 27 de maio de 1998, estreou na Rede Globo a minissérie Hilda Furacão. Onze anos se passaram e parece que foi ontem que Ana Paula Arósio veio cedida pelo SBT, com quem ainda tinha contrato, para interpretar o mito mineiro. A minissérie escrita por Glória Perez e dirigida por Wolf Maia, é uma adaptação do livro homônimo de Roberto Drummond, que conta a história de uma moça da sociedade mineira que larga tudo para viver na zona boêmia, se tornando a maior prostituta de todos os tempos.

Durante o tempo em que viveu na zona boêmia, Hilda incomodou a cidade, não apenas por ser uma prostituta famosa, mas por se envolver em causas em favor do povo que ali vivia. Além disso, ela se apaixona pelo Frei Malthus, um homem considerado Santo que vai ao Maravilhoso Hotel (onde ela mora) para exorcizá-la e acaba se apaixonando. Tal qual o conto de fadas Cinderela, ela perde um sapato e ele encontra, guardando e sonhando com ela todas as noites.

Há lendas que contam que ela realmente existiu, outros afirmam que a personagem é uma reunião de várias mulheres que Drummond conheceu. O fato é que ele sempre alimentou a idéia de que a história seria real, mas acabou desmentindo-a pouco tempo depois da minissérie ir ao ar. Ao final do livro, o escritor coloca na boca de Hilda a seguinte frase: Diga que eu fui um primeiro de abril que você pregou em seus leitores.

O primeiro de abril, dia da mentira, é o dia em que ela se muda para a zona boêmia e cinco anos depois sai. Exatamente no dia 01 de abril de 1964, quando a ditadura militar está se implantando no país. A confusão gerada faz com que Hilda e Malthus não consigam se encontrar, como haviam combinado. Ele é preso como suspeito, ela vai para Argentina. No livro, os dois nunca mais se encontram. Na minissérie, Glória Perez fez uma cena de reencontro no meio da rua, em uma manifestação contra a ditadura. Pelo menos ali, eles tiveram um final feliz.

Além de Ana Paula Arósio e Rodrigo Santoro nos papéis principais, a minissérie contou com um elenco de peso. Entre eles, Paulo Autran, avesso a televisão, que deu vida ao Padre Nelson, professor de Malthus, que trava uma guerra contra Hilda para salvar seu pupilo. Foi a estreia também do galã Thiago Lacerda como Aramel, o belo. Um ano depois, ele e Ana Paula Arósio estrelavam a novela Terra Nostra.

frei malthus rodrigo santoroHilda Furacão é mais do que uma simples história de amor, e sim a representação de grandes dogmas e crenças da sociedade moderna. A minissérie se passa na década de 50, quando ainda não havia ocorrido a revolução sexual das décadas de 60 e 70. Porém, o mais importante para a análise da construção da história é a época em que ela é transmitida. O ano foi 1998. Vésperas da virada do século, onde as conquistas femininas já haviam ganhado peso e a maioria dos tabus sexuais haviam sido quebrados. O homem e a mulher estão buscando cada vez mais a satisfação sexual em detrimento de valores antigos como família, tradição, casamento. Porém, há coisas ainda sagradas, mesmo para as sociedades pós modernas. A Igreja Católica e o celibato do padre ainda estão entre os valores intocados da sociedade.

A minissérie foi um sucesso, mesmo concorrendo com a Copa do Mundo de Futebol de 1998, sendo sempre relembrada e hoje podendo ser conferida em DVD. Com uma edição horrível, é verdade, já que a Globo insiste em lançar DVDs de minisséries sem respeitar a divisão de capítulos, colocando tudo em um balaio como se fosse um filmão. Mas, ainda assim, dá para matar saudades dessa bela história.



sexta-feira, 22 de maio de 2009

Som & Fúria

Intrigante, diferente, curiosa, muitos podem ser os adjetivos para a chamada na novela minissérie da Rede Globo. Som&Fúria, com previsão de estreia para julho de 2009, conta a história de duas companhias de teatro e as chamadas são narradas pelo duo gaúcho Tangos e Tragédias. Vejam, a chamada, antes de mais nada.


Com grande elenco (quando falo grande não é apenas eufemismo propagandístico, confira a lista abaixo), a grande novidade é Fernando Meirelles assinando a direção da obra televisiva. Após o sucesso de Cidade de Deus, o diretor galgou vôos mais altos e dirigiu filmes pelo mundo, tornando-se uma referência. Espera-se então, que possa criar um plus no formato, que terá doze capítulos.

Daniel Oliveira e Andrea BeltraoA minissérie é, na verdade, uma adaptação da série canadense Slings and Arrows, que retrata os bastidores de uma companhia de teatro que interpreta obras de Shakespeare. Som & Fúria tem como história a trajetória de duas companhias de teatro: A bem sucedida de Pedro Paulo Rangel (Oliveira) e a mal sucedida de de Felipe Camargo (Dante). Os dois, junto com Andréa Beltrão (Elen), eram amigos e participavam de uma mesma companhia no passado, mas Dante tem uma crise e foge, mudando a vida dos três. A minissérie irá narrar a história a partir do reencontro, já com as duas companhias. E assim, mostrará trechos das peças Hamlet, Romeu e Julieta, Sonho de uma Noite de Verão e Macbeth, obras famosas do dramaturgo inglês, de uma forma bem humorada. Rodrigo Santoro, também está de volta a televisão brasileira, com uma participação na minissérie, seu personagem será um publicitário que tentará se dar bem prometendo promover a companhia de teatro.


Felipe Camargo e Andrea Beltrao
O elenco conta ainda com grandes nomes como:Dan Stulbach, Daniel Oliveira, Regina Casé, Genro Camilo, Maria Flor, Chris Couto, Débora Falabella e Paulo Betti. Tem tudo para ser uma grande atração, só nos resta aguardar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Deu a louca no tempo

Contando com um bom elenco, Didi levou as telas da Globo a minissérie Deu a Louca no Tempo. Com cinco episódios contava a trajetória de um cientista maluco (tá bom, clichê maior, impossível) que criou uma máquina do tempo para procurar a Pedra Filosofal. Interpretado por Odilon Wagner, o cientista Nicolai (uma referência bem óbvia ao alquimista Nicolau Flamel) comanda um hotel em uma ilha paradisíaca e utiliza os hóspedes para fazer suas experiências.



Comandado por Didi, o elenco é bastante conhecido do seu público, a boa surpresa ficou por conta de Bia Seidl. Sempre tão pouco valorizada pela Globo, a atriz só teve dois bons papéis na rede: o anjo da morte de Sexo dos Anjos e a malvada Glória de A Gata Comeu. Algumas participações interessantes na minissérie Engraçadinha e Memorial de Maria Moura, o restante foram personagens secundários bobos ou que perderam a força como em Alma Gêmea. Lola foi mais um deles, uma socialite atrapalhada que vê sua filha sendo enviada para pré-história e tem que ajudar a trazê-la de volta.

A aventura infantil, no entanto, tem um bom saldo. Melhor que a repetição eterna de Malhação que continua no ar graças a sua audiência inexplicável, divertiu a garotada por uma semana. Isso mostra que o personagem criado por Renato Aragão ainda tem fôlego para uma sobrevida aos Trapalhões. Ele poderia se dedicar a projetos como estes, em vez de insistir na já desgastada Turma do Didi.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Quando fala ao coração

Não se pode deixar de dizer que Jayme Monjardim seja corajoso. Dirigir uma minissérie que conta a vida de sua própria mãe e sendo essa mãe uma cantora polêmica, cheia de escândalos em sua vida pessoal e com uma relação tão ausente com o filho não é para qualquer um. Quem viu o capítulo final pode ter uma noção da emoção que este sentiu ao dirigir o próprio filho interpretando a si mesmo em uma discussão forte com a mãe, sua posterior reconciliação e logo depois gravar o acidente que tirou a vida de sua genitora. Não tem como ser impessoal e a minissérie, apesar de bem acabada e de grande valor, foi feita para resgatar Maysa.

O texto, as cenas escolhidas, a forma como a história foi conduzida, tudo tende a uma manipulação para que o público se encante e tenha a sensação de que aquela mulher foi uma estrela incompreendida e que merecia mais destaque na mídia, como grandes mitos da música brasileira. Maysa acabou a vida cantando em uma churrascaria, esquecida pelo público. E a sensação que fica ao ver seu sucesso no Brasil e no mundo é: como ela conseguiu isso? Essa passagem, a minissérie não mostra. Tudo que sabemos é que ela foi controversa, "bebia, falava e amava demais" e lutou para fazer apenas aquilo que tinha vontade. Para tanto, foi capaz de abandonar o filho em um internato por dez anos, acabar um casamento sem nunca deixar de amar o marido e se envolver com vários homens dos mais diversos estilos. Cantou a Bossa e a Fossa sem nunca deixar de ter um ar triste.



A minissérie cumpriu um papel ao contar em nove capítulos a história dessa mulher extrema, mas está longe de ser uma obra-prima da teledramaturgia. O texto foi fraco, Manoel Carlos tão conhecido por suas Helenas no Leblon não conseguiu repetir o feito que teve em Presença de Anita, onde contou uma história forte e concisa. Os diálogos soavam falso em muitos momentos e o vai e vem na história tornava a trajetória confusa e muitas vezes ficava a sensação de querer justificar demais as atitudes da cantora. A fotografia, no entanto, estava impecável. Affonso Beato trouxe um olhar incomum na televisão brasileira e deu um diferencial belo a minissérie que por si só já vale. Além disso, os atores eram todos desconhecidos do grande público, vindos do teatro, e deram um tom mais real. Larissa Maciel cumpriu bem o seu papel, encarnando Maysa com maestria. Só ficou aquém nos momentos em que cantava, insistindo em um ar doce e esboçando um sorriso que a verdadeira nunca fez. Maysa cantava com uma expressão de dor que assustava, talvez Larissa tenha querido amenizar um pouco esse sofrimento, mas acabou ficando falso.

Quanto a direção, Jayme Monjardim cumpriu o seu papel. Há muitos close, sim, mas isso faz parte da linguagem da televisão. Não chegam a incomodar. O ritmo lento e contemplativo que lhe é característico não chegou a tornar a minissérie maçante e não tivemos aqueles céus avermelhados que o diretor tanto adora. Mesmo envolvido emocionalmente, Monjardim conseguiu dirigir a obra com sensibilidade e beleza. Fez de Maysa uma boa minissérie, com grande audiência e que cumpriu o papel de resgatar a história dessa grande cantora, que ainda hoje tem um público fiel.

Então, um pouco da verdadeira Maysa