sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Guerra dos Sexos: Tiro no pé?

Em 1983, Sílvio de Abreu emplacou um enorme sucesso. Nunca reprisada no Vale a Pena Ver de Novo, Guerra dos Sexos figurava no imaginário brasileiro a ponto de ser uma das mais pedidas em reprise. No Brasil, a telenovela foi reapresentada apenas em um compacto no ano de 1989 na extinta Sessão Aventura.

Vários fatores levaram essa novela ao sucesso. Primeiro, o elenco. Reunir no time principal nomes como Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Tarcísio Meira e Glória Menezes não era para todos. Isso sem falar nos coadjuvantes de luxo como Yara Amaral, Ary Fontoura, Lucélia Santos, Maria Zilda e Marilu Bueno. E o elenco jovem de nomes expoentes da época como Maitê Proença, Mário Gomes, José Mayer, Cristina Pereira, Diogo Viela e até um, quase estreante, Edson Celulari.

Tinha também a época. Guerra dos Sexos falou de um tema que estava no auge, a briga entre homens e mulheres. Foi também uma telenovela inovadora, que ousou ao destacar a beleza masculina, coisa que não era comum na televisão, principalmente com o personagem Nando de Mário Gomes que estava sempre mostrando os músculos e uma tatuagem bem anos 80 no peito. Isso sem falar nas inúmeras referências à própria televisão, principalmente com a personagem Nieta, de Yara Amaral que estava sempre citando os galãs de novela e os personagens marcantes. Há uma cena hilária dela com Paulo Autran conversando sobre o personagem do ator na novela Pai Herói, por exemplo. Além claro da brincadeira de colocar Tarcísio e Glória, o casal símbolo da televisão, como rivais.


Tudo isso fazia sentido e, não por acaso, foi sucesso. Misteriosamente, o que ficou para o público em geral nas milhares de homenagens rendidas à telenovela foi a famosa e famigerada cena do café da manhã, onde Otávio e Charlô se lambuzavam com os diversos ingredientes do desejum em uma cena hilária, realmente, mas que não traduz a telenovela. E parece que os criadores dessa nova versão, que por sinal são os mesmos da original, querem manter essa aura tola, vide o que fizeram com essa cena.


Para começar, a cena foi gancho do capítulo de quarta para quinta-feira. O gancho. Como se todos estivessem esperando apenas por essa cena reprisada na nova versão. Depois, eles usaram flashes da cena original, como se fosse uma lembrança de Olívia. Uma homenagem ou o atestado de que o original é o que todos queriam ver? Isso ainda foi um tiro no pé, pois além da comparação óbvia, ainda fica o atestado de que nem mesmo o roteiro foi atualizado. Estamos vendo uma cópia mal feita da versão de 1983.

Esse atestado de cópia traz outros problemas. Estamos em 2012 e as falas machistas e feministas soam deslocadas do tempo. As situações ficam forçadas, sem sentido, sem uma identificação com o público jovem atual. A homenagem ainda trouxe uma incongruência. Se estamos vendo a história de Charlô II e Otávio II, porque tudo é exatamente igual? E como eles são sobrinhos do casal anterior se eles não tinham irmãos, apenas os parentes distantes portugueses?

Mas, esses são apenas detalhes, o problema é mesmo querer repetir uma história que já foi. Até os atores estão deslocados, construindo em vez de personagens, caricaturas das interpretações dos personagens anteriores. Reynaldo Gianecchini é o que mais está sofrendo com isso, ao tentar imitar os trejeitos atrapalhados de Mário Gomes. Mas, até em Tony Ramos, que está sempre ótimo como Otávio, é possível ver um eco de Paulo Autran, a começar pelo bigode branco sendo ajeitado como um tique nervoso. Isso sem falar que está branco daquele jeito para puxar o mistério do bigode preto.

Mário Gomes guerra dos sexos
Há também o problema de adequação do personagem ao papel. Reynaldo Gianecchini é um galã, não há dúvidas. Lindo, não tanto com a caracterização do personagem, mas capaz de chamar a atenção de qualquer mulher. E tem um bom físico, mas não chega a ser o destaque da telenovela, ainda mais ao lado de Eriberto Leão que está com os músculos muito mais definidos. Então, repetir a mesma situação onde Roberta Leone fica impressionada com o "físico" de Nando quando o vê pela primeira vez, já tendo visto Ulisses sem camisa em uma cena anterior, não deixa de ser estranho. É muito diferente de ver Mário Gomes na época sem camisa, comparado a José Mayer que sempre foi magro. Bastava ela dizer algo como "que homem bonito", em vez de "que físico". É esse tipo de adaptação que poderia ser feito, sem doer a ninguém. Mas, ainda bem que não inventaram uma barba falsa para o Giane só para manter o bordão de Felipe de chamá-lo de macaco barbudo.

Outro grande problema do novo elenco está em Roberta Leone e Felipe. A graça de suas eternas brigas e insinuações de que poderiam ser um casal estava no fato de serem interpretados por Tarcísio e Glória, não apenas casados na vida real, como par romântico em diversas novelas. Ver Glória Pires e Edson Celulari reprisando essas cenas não tem o mesmo sentido. Fica até deslocado em alguns momentos. Se ele ainda fosse casado com Cláudia Raia e ela fosse a Roberta, talvez pudesse funcionar. Até porque o casal começou a namorar em uma novela de Sílvio de Abreu. Poderia ser uma boa brincadeira.

Quando foi anunciado o remake de Guerra dos Sexos, Sílvio de Abreu garantiu que iria fazer uma atualização do texto, adaptando para a época em que estamos. Uma pena que até agora não é isto que estamos vendo em tela. A maioria das falas e cenas é exatamente igual à original. Se era para ser assim, seria muito melhor uma reprise. De preferência no Canal Viva que seria na íntegra. Mas, um edição no Vale a Pena Ver de Novo já seria um ótimo presente a todos os fãs da telenovela.

Para não dizer que nada nessa nova versão é melhor que a original, temos que elogiar a abertura. A de 83 era meio sem noção com homens e mulheres em exercícios físicos diversos. Aqui, pelo menos uma divertida animação, com a cena do café da manhã, claro, nos leva a diversos "casais" no reino animal em guerra.

2 comentários:

Daniel Pepe disse...

Amanda, suas impressões são praticamente as mesmas que eu tenho! A novela está um arremedo do original, com os atores atuais fazendo caricatura dos originais. Sem contar que o clima oitentista combinava mais com a história. Hoje em dia fica tudo muito deslocado. Uma pena, tb acharia mais produtivo a reprise da original, ou um box editado em DVD.

Amanda Aouad disse...

Pois é, Daniel, uma pena mesmo...