domingo, 25 de setembro de 2011

Quem quiser que conte outra

O final de Cordel Encantado deixa um vazio na teledramaturgia brasileira, mesmo sendo esticada e tendo que dar algumas enroladas para render mais história que o previsto Thelma Guedes, Duca Rachid e Thereza Falcão estão de parabéns por conseguir inovar o melodrama de uma maneira tão encantadora. A quantidade de referência foi enorme, e era uma diversão identificá-las a cada capítulo, mas o que chama a atenção é a mistura perfeita de conto de fadas com literatura de cordel que as autoras conseguiram imprimir de uma maneira tão agradável de acompanhar.

Amora Mautner e a equipe de direção, captaneados pelo diretor de núcleo Ricardo Waddington também merecem todos os elogios. Cordel Encantado não foi cuidadosa apenas no início, final e cenas importantes. Cada cena, cada capítulo tinha um cuidado especial na direção e fotografia que ajudavam a criar o clima da história e nos envolver a cada dia. Isso sem falar do trabalho da equipe de arte com tantas roupas, assessórios e cenários misturando época, serão nordestino e reinos distantes. Um cuidado especial em cada detalhe.

A última semana teve vários momentos grandiosos e o mais interessante foi ver o fechamento do ciclo com o sonho de Miguelzinho e do Rei Augusto no primeiro capítulo se concretizar no penúltimo com Timóteo colocando fogo em tudo e Jesuino chegando para salvar a flor Açucena. Um ciclo que se fecha e confirma que as autoras já sabiam onde queriam chegar desde o princípio.



Após a resolução de boa parte das tramas no penúltimo capítulo, ficava a pergunta do que seria do derradeiro epsódio daquela saga sertaneja. Vimos com emoção, a morte de Timóteo queimado, enquanto todos esperavam Açucena acordar novamente de seu sono profundo. Assim, como acompanhamos o sacrifício de Úrsula, provando no final que realmente havia se apaixonado pelo capitão Herculano a ponto de encontrar sua redenção morrendo nos braços do amado. Com quase todos felizes ou encaminhados, o capítulo de quinta-feira acabou com a coroação de Jesuíno em Seráfia. Faltava pouca coisa realmente.

Talvez aí tenha sido o único pecado de Thelma Guedes, Duca Rachid e Thereza Falcão. Ao último capítulo restou apenas uma espécie de epílogo da história. Claro que vimos finalmente o casamento de Jesuíno e Açucena, em uma cena divertida e emocionante da confirmação do amor de princesa e cangaceiro anunciados desde a abertura da novela. Vimos também os clássicos nascimentos de bebês e reunião de casais. Mas, o capítulo acabou ficando arrastado, faltando maiores emoções, o que acabou criando uma nova peripércia final: a candidatura de prefeitos a Brogodó. A candidatura e todo o desenrolar da trama de Zóio Furado, foram o ponto negativo da trama, assim como a volta de Ternurinha para os braços de Patácio.

E quando tudo parecia um verdadeiro conto de fadas, Thelma Guedes, Duca Rachid e Thereza Falcão lembraram ao seu público que se tratava mesmo de uma literatura de cordel. Vimos então, irritados, o retorno do coronel, encarnado na figura de Caco Ciocler, tendo novamente Zóio Furado como seu braço direito. Todo o discurso de Jesúino sobre a eterna luta do bem contra o mau, é real, mas não deixa de ser frustrante para aqueles que queriam ver um "e foram felizes para sempre". Interessante foi a conclusão em um forró qualquer onde o cordel foi recitado para um público "real", inclusive as três escritoras. Terminando com os atores Bianca Bin e Cauã Reymond interpretando uma espécie de novos Açucena e Jesuíno da vida "real", reconstruíndo a fantasia da história.


Entre altos e baixos, Cordel Encantado vai entrar para história da teledramaturgia brasileira. Por sua qualidade técnica, por seu elenco afinado, por sua história criativa e encantadora como poucas atualmente. E claro, como consequência de tudo isso, por sua enorme audiência, sempre batendo recordes do horário. Vai deixar saudades. E como dizia um programa infantil que adorava ao final de cada história: "Entrou por uma porta, saiu pela outra, e quem quiser que conte outra".


domingo, 21 de agosto de 2011

Estamos mesmo ficando moralistas?

Em 1988, a personagem Maria de Fátima aprontou todo tipo de maldades, mas terminou ao lado de seu amante César Ribeiro em um acordo nupcial bastante escandaloso com um príncipe distante. Era um triângulo amoroso moderno movido por dinheiro. Tudo certo, ninguém pensou em puni-la. Vinte e três anos depois, a mesma atriz interpreta uma ingênua enfermeira que é presa ao ser enganada pelo namorado, corrompida pelo ódio e maus tratos na cadeia, se transformando em uma vingadora sem escrúpulos. Tanto que acaba provocando a morte de seu marido rico. Dessa vez, os autores acham mais ético puní-la e, faltando três capítulos para o final, Norma é assassinada gerando o oitavo "Quem matou?" da carreira de Gilberto Braga.

O próprio autor declarou que Norma precisava ser punida por seus crimes. E Maria de Fátima não? A moral e bons constumes reinou em Insensato Coração como não se via há muito tempo em telenovelas. A garota Cecília, por exemplo, vivida por Giovanna Lancelotti caiu na lábia do "bad boy" Vinícius de quem engravidou. Mas, na reta final ela perde o bebê e o vínculo com o marginal em uma das decisões mais chocantes na trama. Afinal, não fez muito sentido a visita da garota ao ex na cadeia para pedir que ele ficasse "longe do filho". Como também não fez sentido o empurrão dele, e a forma fácil com que ela perdeu a criança. Basta comparar com a já citada Maria de Fátima que rolou da escadaria do Municipal para perder o bebê que esperava de César e não conseguiu. Parecia que os autores queriam mesmo poupar a menina e o personagem Rafa, seu namorado, de criar o filho de um marginal.

Outra situação moralista foi o desenrolar do personagem André, mulherengo convicto que teve seu pecado pago com um câncer nos testículos. Aliás, toda a cena de descoberta da doença foi vergonhosa. O rapaz não teve nem a chance de se regenerar com sua amada Carol, Camila Pitanga, que acabou casando mesmo com Raul, Antônio Fagundes. Parece que a moral só não falou mais alto no caso da personagem Natalie de Débora Secco que não apenas ficou rica, como se elegeu deputada federal em um misto de crítica às mulhres frutas eleitas e Tiririca, já que ela chegou a citar a famosa frase do palhaço na campanha: "O que faz um deputado? Também não sei, mas vota em mim que eu te conto".

Voltando àa Norma, é interessante perceber como Glória Pires tomou a novela para si. A personagem se tornou protagonista absoluta da trama, sendo sua trajetória de vingança muito mais interessante do que o insosso romance de Pedro e Marina. Até por isso, sua morte foi tão surpreendente e, por algum lado, frustrante. Tanto esforço acabou em três balas disparadas em seu peito por Wanda, uma mãe jocastiana em defesa do seu pimpolho querido. Mas, nem tudo acabou na terça-feira. Mais surpreendente que descobrir que Wanda matou a quase nora, foi perceber que Norma já tinha deixado seu plano de vingança arquitetado. Ela iria mandar prender Léo e ele seria morto na cadeia por Cortez. Norma só não contava ser morta e não poder desfrutar de sua vingança.

Entre erros e acertos, Insensato Coração não é das piores novelas que já foram exibidas no horário nobre como muitos estão afirmando. Tem uma boa estratégia e sempre grandes diálogos, marca de Gilberto Braga que Ricardo Linhares está acompanhando, claro que há exceções, como no caso já citado da doença de André, mas no geral, acompanhamos bons momentos como a cena em que Eunice conversa com o marido Júlio, por exemplo, logo depois de chegar da delegacia. Ou a sutileza da cena entre Wanda e Raul, com a revelação da falsa morte de Léo. Uma novela que não deixa muitas saudades, mas marca uma época em que o politicamente correto e a faixa indicativa de horário dominam o conteúdo televisivo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Quem matou Salomão Hayalla?

A pergunta com a qual Janete Clair parou o Brasil em 1978 voltou ontem à noite. No capítulo, Salomão Hayalla, agora interpretado por Daniel Filho, foi assassinado por alguém misterioso, que agora deixou um botão branco como pista. Será que o Brasil vai se movimentar novamente em torno da pergunta fatídica? Pelo menos no twitter ela apareceu inúmeras vezes enquando o capítulo era exibido.

Mas, engana-se quem acredita que esse foi o primeiro "Quem Matou" em telenovelas. Nem mesmo foi Janete Clair, como muitos afirmam, que introduziu o mistério policial nas tramas. Em 1966, Glória Magadan criou o personagem "Rato", primeiro serial killer no gênero televisivo que matou metade do elenco para proteger o tal Sheik. No final da novela, revelou-se que o Rato era a princesa Eden de Bassora. Janete Clair só iria utilizar esse recurso em 1969 na telenovela Véu de Noiva e quase por acaso. O ator Geraldo Del Rey, que fazia o Luciano pediu para sair da trama. Clair, então, criou o assassinato misterioso. "Quem matou Luciano?" não fez tanto sucesso assim, mas marcou o gênero. A assassina foi a personagem de Ana Ariel.

Mesmo com esses dois mistérios, além de um utilizado por Dias Gomes também sem muita repercussão, o "Quem matou Salomão Hayalla?" foi o primeiro grande mistério nacional. O Brasil inteiro se perguntava o nome do assassino, vários bolões foram feitos, a imprensa explorou bastante o mistério e até mesmo o ator Edwin Luisi ficou na dúvida se seu personagem Felipe seria o assassino ou não. Naquela época, Janete Clair não tinha tanta preocupação com o mistério e quando convidou o ator para a telenovela já ofereceu o papel do assassino de Salomão Hayalla. Mas, as reviravoltas só serviram para surpreender a todos com a confirmação do nome do assassino.

A pergunta "Quem matou Salomão Hayalla?" só foi superada em 1988, com o famoso "Quem matou Odete Roitman?" na telenovela Vale Tudo, recentemente reprisada no Canal Viva. Todo o Brasil parou novamente em torno da pergunta e o Caldo Maggi fez um concurso nacional com um prêmio em dinheiro para quem acertasse o mistério. Dez anos depois, a indústria da televisão já estava mais organizada e o esquema para encobrir o nome do assassino teve que ser melhor organizado. Os autores chegaram a escrever cinco finais diferentes e a cena da revelação só foi gravada no dia em que o capítulo foi ao ar. No final, o Brasil se surpreendeu com a notícia de que Leila havia matado a empresária por engano. Queria matar Maria de Fátima que estava tendo um caso com seu marido, Marco Aurélio.



Os autores de Vale Tudo ainda iriam repetir a fórmula de mistério. Aguinaldo Silva, que assinou a co-autoria da trama, apesar de hoje abominar o recurso, utilizou na trama seguinte com o "Quem matou Arturzinho da Tapitanga?". Já Gilberto Braga, o autor principal, dono da sinopse, já havia utilizado a fórmula em Água Viva, com "Quem matou Miguel Fragonari?" e na minissérie Anos Dourados com "Quem matou Lutero?". Anos depois, essa pergunta se tornaria uma marca autoral, já que a partir da minissérie Labirinto, em 1998, todas as duas tramas teriam um "Quem matou?". E muitos já anunciaram e esperam a pergunta em sua atual telenovela: Insensato Coração. "Quem matou Tais Grinaldi?" em Paraíso Tropical. "Quem matou Lineu Vasconcellos?" em Celebridade. E finalmente, o que considero a melhor solução: "Quem matou o Barão Henrique Sobral?" em Força de Um Desejo.

Por que Força de um Desejo tem a melhor solução? Porque a resposta foi completamente surpreendente e coerente ao mesmo tempo. Bárbara Ventura era a última personagem em quem alguém iria apostar as fichas para o nome da assassina. Ela era o alívio cômico da trama. Todas as pistas levavam para a Fazenda Morro Alto e se fosse Higino Ventura o responsável seria muito óbvio. Ser sua esposa por si só não diz muito, mas quando foi explicado o início do assassinato em série, tudo fez um sentido imenso. Bárbara matou a baronesa Helena Sobral, paixão de adolescência de seu marido. O resto foi consequência para encobrir o primeiro crime.

Além disso, a solução da trama foi explicada com cenas da telenovela. Hoje, analisando-a com detalhes posso perceber que desde o início os indícios estavam lá. São muitos detalhes que parecem passar despercebidos como a tentativa de aproximação de Bárbara de pessoas que conhecessem a baronesa. A cumplicidade do capanga Vitório ao fazer com que o médico Xavier voltasse a ser o médico dos Ventura, a doação dos remédios da baronesa Helena à Xavier, após sua morte, fazendo com que o médico pudesse descobrir o primeiro assassinato de Bárbara e fosse morto por isso. A aparição de Bárbara no bar, na noite em que o padre foi assassinado. A escrava da fazenda dos Castro Rebelo e seu medo de Higino Ventura, a ligação das mortes pelo remédio. A visita do Barão ao amigo Castro Rebelo no dia de sua morte. A necessidade de falar com Alice. Enfim, tudo se encaixa perfeitamente. Para completar, a forma como tudo foi descoberto foi muito divertido, com uma falsa notícia de confissão de Higino Ventura, que fez Bárbara confessar o crime.


Outros autores também já utilizaram do recurso, como Lauro César Muniz e Sílvio de Abreu, este tendo até mesmo realizado uma telenovela totalmente voltada para um serial killer: A Próxima Vítima. A trama fez um enorme sucesso revelando o nome de Adalberto como o assassino na versão brasileira. Já em Portugal, o final exibido foi com Ulisses como responsável pelas mortes, esse final foi exibido também na versão do Vale a Pena Ver de Novo da Rede Globo. A última telenovela de Sílvio de Abreu também teve um assassinato. Primeiro ele fez uma tentativa de repetir o mistério de O Rebu com a pergunta "Quem morreu?", mas não funcionou direito, pois no capítulo vários personagens brigaram com o personagem Saulo, dando indícios que ele seria o assassinado.

O fato é que, bem feito ou não, com muita ou pouca repercussão, mistério policial e telenovela parece mesmo um bom casamento para a boa audiência. Resta saber como será a repercussão desse novo "Quem matou Salomão Hayalla?" e se isso vai fazer Gilberto Braga e Ricardo Linhares desistirem de perguntar ao país "Quem matou Léo?"

domingo, 17 de julho de 2011

O Astro

Em 1978, Janete Clair parou o Brasil com a telenovela O Astro. A pergunta que todo mundo queria saber a resposta: Quem matou Salomão Ayala? Claro que a trama não se resumia a isso. Era, na verdade, protagonizada por Francisco Cuoco como Herculano, uma espécie de guru com poderes místicos. Agora, a trama de Janete Clair está de volta pelas mãos de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro em um formato especial.

A nova novela da Rede Globo é uma homenagem aos 55 anos de telenovelas no país, sendo exibida de terça à sexta, às 11 horas da noite. O mesmo formato de grade ocupado desde 1981 pelas minisséries. Mas, não tem como negar que o formato narrativo seja de telenovela. Vários núcleos, tramas paralelas, dinâmica do capítulo, e claro, o anúncio óbvio da chamada da emissora: "Vem aí, a sua nova novela das onze". E ao contrário dos demais remakes de Janete Clair, essa primeira semana agradou ao público, sendo primeiro lugar no Ibope.


O ritmo do primeiro capítulo foi bom, os atores estão bem no papel, o texto é ótimo e foi muito bem adaptado para nossa época atual. Já no segundo capítulo, a qualidade começou a cair um pouco, o tom já excessivamente melodramático de Janete Clair parece que foi elevado pelos adaptadores. A cena em que Márcio enfrenta o pai não chegou aos pés da original, por exemplo. E nem falo da interpretação de Thiago Fragoso, que mesmo não sendo um ator como Tony Ramos, conseguiu defender bem sua opção a la São Francisco de Assis. Mas, a direção da cena, já descendo as escadas tirando a roupa, a música, o texto mais emotivo. Perdeu.


Ainda assim, a trama traz curiosidade. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a simbologia de chamarem Francisco Cuoco para interpretar o mestre de Herculano. O ator fez o protagonista de O Astro em 1978. Ele ensinar a Rodrigo Lombardi o caminho de seu sucesso não deixa de ser algo extremamente simbólico, como uma benção do elenco original para o novo. Dina Sfat, que interpretou Amanda na primeira versão, também está representada por sua filha Bel Kutner que faz parte da trama em um papel secundário, o de Sílvia. Se ela fizesse o papel da mãe seria uma bela homenagem, mas a atriz não tem tanta força, e Carolina Ferraz combina melhor com o papel. Fora isso, a caracterização da atriz está muito próxima de Dina Sfat. Cabelo, maquiagem, postura, tudo parece lembrá-la.

É importante também ressaltar a presença de Daniel Filho como Salomão Ayala já que ele foi o grande parceiro de Janete Clair, dirigindo a maioria de suas tramas, inclusive O Astro em 78. E Regina Duarte, como Clô Ayala, que interpretou algumas das heroínas mais famosas de Janete Clair como Simone de Selva de Pedra. Ou seja, o elenco foi escolhido com muito cuidado. Parece que tudo foi pensado nos mínimos detalhes para fazer eco à trama original. Resta saber se irá encantar o país da mesma forma.


sexta-feira, 15 de julho de 2011

Final de Vale Tudo

Ontem o Canal Viva exibiu o último capítulo da telenovela Vale Tudo. Impressionante como vinte e três anos depois, a trama continua atual: Vale a pena ser honesto no Brasil? Claro que as mudanças políticas, as últimas CPIs, etc nos dão esperança de que tem sim, muita gente honesta, mas ainda tem muito jogo sujo e muita gente molhando a mão de um guarda para se livrar de uma multa.

No último capítulo, tirando a expectativa do nome do assassino de Odete Roitman, que, claro, continuou sendo Leila por engano, o tema foi esse. De um lado, a fuga de Marco Aurélio e Leila no jatinho particular dando uma banana para o país. Até hoje um marco na teledramaturgia. Não era comum ver um vilão como o personagem de Reginaldo Faria se dar tão bem. Ainda mais com esse símbolo agressivo direcionado ao Brasil. Temos que lembrar que eram apenas quatro anos de volta da democraria, a questão cívica ainda era um tabu. O mais genial da montagem do capítulo é que logo após a cena de Marco Aurélio, vem uma cena onde Poliana come uma banana calmamente. A simbologia não poderia ser mais perfeita. Ele foge e a gente tem que engolir.


No outro ponto do capítulo, temos o drama de Ivan, preso e condenado por suborno. Raquel, a personagem de Regina Duarte, símbolo na honestidade na trama, questiona no fim se realmente vale a pena ao ver seu marido atrás das grades enquanto Marcos Aurélios fogem ilesos. A questão é: Ivan realmente errou, fez um suborno para beneficiar a empresa. Mas, Raquel não se conforma que ele tenha ido para cadeia por tão pouco, enquanto outros não. "Prenderam apenas meia dúzia de pobres, como posso acreditar em justiça nesse país?", ela pergunta. Ivan é enfático ao dizer que acredita que o Brasil tenha jeito e que ele seja apenas o primeiro caso.

Ainda nessa conversa, Ivan fala que o povo está aprendendo a votar, o que não deixa de ser um irônia sabendo o que vem depois. Era janeiro de 89, ano das primeiras eleições diretas desde o golpe de 64. Como todos sabem, aquele ano foi eleito Collor de Mello, que sofreu impeachment dois anos depois por corrupção. E hoje, está novamente no governo, como senador. Mas, há sempre a esperança, afinal, estamos apresendo ainda a viver em uma democracia. Tendo a ser mais otimista como Ivan do que pessimista como Raquel que viu os pobres "pagarem o pato". Mesmo com a fuga de Marco Aurélio e Leila, além do final de César, que também conseguiu um belo golpe ao lado de Maria de Fátima, o final de Vale Tudo é otimista.

Vale Tudo construíu sua trama em torno de duas trajetórias: Mãe e Filha, uma honesta outra corrupta em uma espécie de competição velada para provar qual estava certa. No final, Raquel vence na vida pelo seu próprio trabalho, depois de vender sanduiche na praia, vira uma empresária do ramo alimentício reconhecida mundialmente. O caso é que Maria de Fátima também venceu. Depois de vários golpes fracassados, ela reencontra seu parceiro César que lhe dá uma oportunidade ímpar: um casamento de fachada com um príncipe milionário que lhe dará em contrato um milhão por cada ano casado. A única diferença do pensamento original de Fátima é que ela conseguiu vencer sem enganar o noivo, não foi um golpe, mas um acordo para enganar os eleitores do marido e calar a imprensa que insinuava que ele poderia ser homossexual. Os valores continuam invertidos, mas tem uma ponta de mudança nesse caso.

Mas, a questão principal é que o último capítulo tem mais coisas boas que ruins. As pessoas se dão bem, há casamentos, Heleninha para de beber, faz uma exposição de sucesso, Afonso descobre que é pai de Marcinha, reconquista Solange, Aldeide e André se acertam. Enfim, o clima é festivo. Ivan sai da cadeia e lança um livro "Vale Tudo?" falando exatamente da questão da honestidade no país e essa é a mensagem dos autores. Precisamos questionar nossa própria ética. Nossos conceitos. Não é porque a gente acha que todo mundo é corrupto que vamos ser também. E não é porque aconteceu à alguém que a gente ama que vamos relevar, como fez Raquel. No início da novela ela era quem mais defendia essa bandeira, porque ser condescedente agora no ato de Ivan? São nas pequenas coisas que surgem as grandes.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Aberturas literais de novelas

Uma espécie de moda invadiu o youtube. Pegar aberturas de novela e recriar suas letras de forma literal, como se fosse uma audiodescrição. Tudo fica bem engraçado e criativo.

A abertura de Vale Tudo foi a que ficou melhor. A música de Cazuza e o ritmo clipado das imagens ajuda na composição, basta ir falando as imagens que aparecem na tela. Não há uma ação a ser descrita.


A abertura de Rainha da Sucata é interessante também, mas é mais difícil descrever a ação, até porque tudo gira em torno da dança. Acabam apelando para insinuações sexuais que não estão exatamente na tela. Ainda assim, tem pontos engraçados.


A abertura de Vamp é ainda mais complicada. Afinal, aqui tem uma história acontecendo. Colocar a descrição no ritmo da música é difícil, fora que a presença de Cláudia Ohana acaba sendo privilegiada na letra. Mas, destaque para a brincadeira final de "cães não viram vampiros, erraram a história".


Por fim, a abertura de Brega & Chique. Aqui o humor chega mais próximo da abertura de Vale Tudo. As modelos na tela tem as ações descritas de uma forma divertida e rápida. Detalhe que eles chamam a atenção para a presença de Doris Giesse, e passam batido por Ísis de Oliveira. 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A volta dos Anos Rebeldes

Amor e Revolução ainda tenta conquistar seus fãs, enquanto isso, o canal Viva reprisa desde o dia 30 de maio a minissérie Anos Rebeldes. Como é bom ver de novo Maria Lúcia, João Alfredo, Edgar e, principalmente, Heloísa preenchendo as nossas telas de televisão. É, sem dúvidas, minha minissérie preferida. Basta ler o post que fiz em 2009 sobre a obra. Hoje, queria levantar uma nova questão. Na época, a minissérie Anos Rebeldes foi associada ao movimento caras pintadas que lutou pelo impeachment do então presidente Collor de Mello. Será que hoje, ela funcionaria para pensar um pouco mais sobre o país?

Fernando Collor de Mello foi o primeiro presidente eleito de forma direta, após vinte anos de regime militar, vencendo o candidato do Partido dos Trabalhadores, Luís Inácio Lula da Silva no segundo turno em novembro de 1989. Seus lemas em campanha eram a “caça aos marajás”, combate à corrupção e progresso do país, representado por sua imagem jovem. Em maio de 1992, Pedro Collor de Mello, irmão do então presidente da república, entregou à Revista Veja provas de corrupção dentro do Governo, relacionadas ao tesoureiro Paulo César Farias, homem de total confiança do presidente. O caso foi investigado e, a cada nova denúncia, outros envolvidos foram aparecendo até atingir o próprio presidente. Collor resistiu até o dia 29 de dezembro de 1992 quando renunciou ao cargo. Ainda assim, foi julgado pelo Senado e condenado, perdendo seus direitos políticos por oito anos.

O povo só se envolveu diretamente no caso em 14 de agosto de 1992 quando uma enorme passeata de estudantes cobriu as ruas do Rio de Janeiro pedindo o afastamento do presidente Fernando Collor de Mello. Com criatividade, os jovens pintaram suas caras com tinta, nas cores da bandeira do Brasil, daí o apelido de “Caras Pintadas”, além de faixas e cartazes diversos. Entre os cartazes, um chama a atenção para o tema: “Anos Rebeldes, próximo capítulo: Fora Collor, impeachment já”, em referência à minissérie da Rede Globo que terminava naquele dia. O presidente foi, então, à televisão pedir que a população saísse no domingo seguinte com as cores da bandeira em sinal de apoio ao governo. Em todo o país, as pessoas responderam saindo às ruas de preto, instalando de vez a manifestação popular a favor do impeachment, que foi visto como um dos principais motivos para o processo ter ido até o fim, principalmente pela aproximação das eleições para prefeito.

A minissérie Anos Rebeldes foi ao ar de 14 de julho a 14 de agosto de 1992, com vinte capítulos, retratando o período da ditadura militar que aconteceu no país sob a óptica de um grupo de jovens divididos entre idealistas e individualistas. Era a primeira obra de ficção na televisão a retratar o período e serviu como um resgate histórico para a população que antes vivia sob censura. A disputa simbólica de ideais pode ser resumida nos personagens João Alfredo e Heloísa, dois idealistas extremistas que se envolvem na luta armada e tentam derrubar o regime. E nos personagens Maria Lúcia e Edgar, dois individualistas, mas não de má índole, que preferem não se envolver e continuar suas vidas, independente da situação.

Em 1992, parecia mesmo que os jovens buscavam essa identificação, por isso, o movimento caras pintadas usava símbolos da minissérie como a música Alegria Alegria de Caetano Veloso, tema de abertura da minissérie, em suas caminhadas. Hoje, após quase vinte anos, a corrupção no país continua, vide o recente caso Palocci, mas parece que nos acostumamos a ela. Será que a reprise de Anos Rebeldes tem alguma chance de acordar novamente a juventudade brasileira em manifestações democráticas? Se ajudar a, pelo menos, pensar melhor na hora de votar, já vai ser um grande feito, pena que não temos eleições no país este ano.